quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sobre teimosia, ingenuidade e arrogância na hora da avaliação

Em setembro deste ano foram divulgados os últimos números do Indicador de Alfabetismo Funcional, o Inaf, revelando que 89% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos são alfabetizados funcionais. Como professor de uma disciplina que exige leitura e escrita, vi nos números frios das estatísticas a realidade que presencio na sala de aula no dia a dia.
Os alunos não gostam quando levantamos a discussão, reagem com fúria, batem no peito e dizem: “tu queres dizer que eu não sei ler?”. Existe ainda muito melindre sobre o assunto por parte dos profissionais que atuam na escola, muitos escamoteiam, preferem jogar a sujeira pra baixo do tapete e quem insiste é tomado por arrogante ou ingênuo, dependendo de quem é afetado: os alunos geralmente ficam com a primeira opção por que vêem o debate como ameaça à sua “progressão” escolar e os professores com a segunda pela impotência e medo. Medo da reação dos alunos e do próprio sistema educacional decrépito que pode lhe furtar carga horária no ano seguinte.
Mas acontece que eu sou ingênuo e, ainda por cima, teimoso (Talvez até um pouco arrogante também). Não aceito como natural uma pessoa, que está batendo à porta da Universidade, não conseguir articular as palavras para formar uma frase e muito menos um parágrafo. É o que acontece. Infelizmente os números do IBOPE estão corretíssimos.
Vejo o problema como estrutural. Ele começa lá na alfabetização e só faz piorar com o “passar de ano” dos alunos, iludidos com notas altas fabricadas para serem exibidas na propaganda governamental como excelentes índices de aprovação.
Diante dessa realidade, o professor muitas vezes fica à deriva, pois o que era certo já lhe parece errado e o errado toma forma de certo. Será que devo corrigir esse trabalho, apontar os erros e correr o risco de parecer arrogante e ingênuo ou devo fazer “vista grossa”, sendo uma cara legal, preservando minhas relações e evitando aborrecimentos?
Uma política pedagógica planejada tem que ser urgentemente posta em prática não só para sanar esse problema lá na base, mas também deve se preocupar com aqueles que já estão aqui em cima, no ensino médio.
Enquanto isso não acontece, só nos resta dar aquele velho conselho àqueles que são os principais prejudicados: estudem, corram atrás do prejuízo. Acontece que isso depende de um outro fator muito importante, que é a conscientização da necessidade de estudar para progredir não só na escola, mas na vida, como pessoa humana e capacitada para enfrentar qualquer desafio, inclusive o de escrever um texto decente.

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