quinta-feira, 10 de março de 2011

Entrevista: a versão de Roquevan.

Como prometi, trago para vocês agora uma entrevista exclusiva com o militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Tucuruí, Roquevan Alves Silva, personagem principal dos burburinhos políticos envolvendo o PCdoB. Vamos à versão de Roquevan sobre esse e outros temas como as eleições de 2012, impugnação de sua candidatura, relação com o MAB, processos na justiça e relação com o poder municipal.
Nascido numa localidade de Tucuruí conhecida como Jatobal, que hoje se encontra no fundo do lago da Usina Hidrelétrica de Tucuruí (UHT), Roquevan e sua família perderam tudo o que tinham, como propriedade, castanhal e roças, entre outras coisas. Veio para a cidade morar de favor na casa de familiares e diz não ter recebido nenhum tipo de indenização até o momento.
Em 1989 teve seu primeiro contato com o MAB e em 2002 passou a militar de forma mais efetiva, inclusive integrando a direção do movimento, que já lhe rendeu diversos processos. Em 26 de abril de 2009 foi preso juntamente com mais 17 trabalhadores quando ocupavam, em protesto, a eclusa da UHT. Uma prisão que considera arbitrária já que não houve mandado de reintegração de posse.
Candidato a deputado estadual em 2010, obteve expressivos 7.750 votos, dos quais 6.660 aqui no município de Tucuruí.

Prof. Augusto: Qual a origem dessas divergências internas do PCdoB?

Roquevan: Eu até tenho me perguntado. Vários outros companheiros de outros partidos tem me ligado e perguntado se existe alguém financiando e se tem alguém se beneficiando com isso. Com certeza tem e não é o PCdoB por que o desgaste está sendo pra nós. Nenhum de nós saímos favorecidos. Nem eu nem o Odécio e nem nenhuma das pessoas que estão envolvidas nisso.  Eu acredito que tem pessoas por trás que estejam se beneficiando e alguém do PCdoB também está se beneficiando por que alguém tá recebendo alguma coisa pra tentar me desgastar ao máximo. Chegar ao cumulo de solicitar a minha desfiliação do partido via cartório eleitoral, comunicar isso em rádio, etc. Não é pouca coisa que está por trás disso. E isso surge no momento em que eu anuncio a minha pré-candidatura em duas rádios locais. Então eu acho que já incomodou aqueles que têm interesse na prefeitura de Tucuruí. Nós temos interesse sim e nós vamos pra disputa eleitoral. Se vamos ganhar a gente não sabe. Nós temos o mesmo direito que tem o atual prefeito e outros de concorrer. Democracia é isso, então é uma disputa. Infelizmente esses camaradas caíram nessa cilada por que isso não desgasta só o meu nome por ser um provável pré-candidato. Se eles estão agindo assim comigo que sou um filiado do PCdoB, como agiriam com outras pessoas? Pra quem me conhece, conhece minha história não tem levado isso a sério. Tanto é que o nosso nome continua firme e cada vez mais crescendo nessa possível candidatura a prefeito aqui de Tucuruí.

Prof. Augusto: O que você acha desse disse me disse que aparece de vez em quando na imprensa e em alguns blogs? Por exemplo, publicaram hoje que o PCdoB estaria prestes a receber a Secretaria de Agricultura da Prefeitura de Tucuruí.

Roquevan: Em relação à Secretaria de Agricultura, eu não participei da conversa, mas tive a informação de que o Diretório Municipal teve recentemente conversando com o prefeito. Então pode até estar sendo ofertado e eles (alguns membros do PCdoB) podem estar pensando no assunto. Algumas pessoas que assumem o diretório pensam que são donas do partido e esse é o grande problema, achar que pode fechar esse tipo de acordo sem levar em consideração os filiados. Dependendo do que está sendo ofertado e daquilo que está em jogo eles podem até assumir, mas teriam que ter a aprovação de todo o diretório. Essa é, inclusive, outra questão, o Odécio e o pessoal do Comitê sabe que da minha parte não há como fechar nenhum tipo de acordo com o Sancler. Então, à medida que eles comunicaram no rádio já sentaram com o homem em seguida. Então é um jogo que tem por trás disso. Não estou dizendo que o Sancler está financiando ou botando lenha, mas é muito estranho que no momento em que eles apresentam no rádio um relatório que me desliga do PCdoB em seguida tenham uma reunião com o prefeito. Então eu não tenho dúvida que a proposta tenha sido feita, que eles estejam pensando e que eles venham até a assumir pra servir de pau mandado do prefeito.

Prof. Augusto: Outro blog disse que você estaria indo para o PR. Existe fundamento nisso?

Roquevan: Quanto a ir pro PR não tem fundamento. Eu não fui convidado oficialmente pelo presidente do partido como hoje eu fui convidado, por exemplo, pelo Deley, que me ofereceu o PV e eu recusei. Falei inclusive na rádio pra todo mundo saber que a minha intenção é continuar no PCdoB. Quem demonstrou interesse e me chamou pra conversar também foi o DEM. Quem trouxe essa informação de eu ir conversar com o Márcio Miranda disse que, como o DEM perdeu sua maior referencia aqui que era o Gualberto, existiria essa intenção da gente assumir o partido aqui. A gente vai até conversar, mas a nossa intenção é permanecer no PCdoB.

Prof. Augusto: Você lançou publicamente sua pré-candidatura à prefeitura de Tucuruí. Você acha que existe condições para que essa candidatura aconteça pelo PCdoB?

Roquevan: Acredito. Acredito por que o PCdoB sozinho não elege ninguém aqui. Tem que fazer uma aliança muito bem feita com os partidos de esquerda pra que a gente possa garantir um grupo em condições de nos levar até a prefeitura. Alguns companheiros que ainda acreditam na gente estavam esperando o resultado pra ver no que ia dar. A executiva estadual determinou a nossa permanência. Tem desgaste? Tem, mas esse desgaste é mais interno que com a sociedade. Hoje o eleitor é muito personalista, então não vota em siglas, vota em pessoas e isso a gente mostrou agora nessas eleições de 2010. Então se a conversa for muito bem feita com os partidos que estão aí soltos e com as lideranças que querem uma coisa nova, querem renovação em Tucuruí eu acho que há possibilidade sim de ganhar a eleição. O atual prefeito sozinho, sem precisar de ajuda de ninguém, desmontou o grupo que ele criou na desgraça do Cláudio Furmam. Dificilmente ele vai conseguir organizar um grupo que leve ele de volta à prefeitura e os nomes que estão colocados não são muito fortes pra dizer que vai enfrentar uma candidatura a prefeito, então a gente tem uma experiência já como candidato a deputado com uma votação que nos credencia, nos dá essa possibilidade de chegar à prefeitura.

Prof. Augusto: Você não acha que uma candidatura à Câmara Municipal seria mais viável, inclusive com a possibilidade do PCdoB fazer mais de um vereador?

Roquevan: (Risos) É, tem muita gente me aconselhando nessa direção e isso também é uma das coisas que foi colocado dentro do PCdoB. Ventilava-se que se eu saísse candidato a vereador as pessoas não se sentiriam bem pra serem candidatos pelo partido por que eu estaria eleito e os outros serviriam apenas para ajudar a me eleger e eu não saindo candidato eles teriam uma igualdade de disputa por uma vaga na Câmara, o que é um outro elemento nessa briga interna.

Prof. Augusto: Agora, se por um lado, você pode supostamente estar eleito, por outro, sem você na chapa o partido pode não alcançar o coeficiente eleitoral. Isso não parece inconsequente?

Roquevan: Acontece que parece que tem camaradas ali no PCdoB que que não olham o geral e sim algumas coisas específicas, tipo assim: olha se o Roquevan vier ele chega e a gente não. Ao mesmo tempo eles não imaginam: pô, mas se ele não estiver na chapa vai cair consideravelmente a votação do partido. Até por que as pessoas estão votando em pessoas e não no partido, tanto que eu tive voto de vários companheiros do PT. Nós temos outros nomes bons pra sair candidato a vereador pelo PCdoB, mas tem outros nem tão bons assim. A disputa por uma vaga na Câmara vai ser pesada, então a gente tem que pensar que, independente do que a gente tenha contra essa ou aquela pessoa, o importante são os votos que ela tenha pra contribuir para a legenda.

Prof. Augusto: Você acredita que essa luta interna abalou sua liderança no MAB?

Roquevan: Não, não abalou. Eu tinha até preocupação quanto a isso, inclusive quando foi lido o documento na rádio contra mim a direção regional ligou pra lá e repudiou até por que o MAB tem o seguinte entendimento: o MAB não era favorável que eu fosse candidato. De repente libera e em seguida o MAB se sente usado de certa forma pelo PCdoB. Aí eu sempre falo para os companheiros que não é o partido, são pessoas que estão lá dentro. Pra mim ele é importante, é um partido muito bom, agora tem pessoas que não tem a índole que condiga com a sigla. Então eles se sentiram usados por que me colocaram como um nome importante pra ser candidato e de repente querem me expulsar. Eles esqueceram que eu era uma liderança do MAB e que toda a minha liderança projetada foi através desse movimento. A direção estadual esteve em Tucuruí sendo solidária a mim e dizendo que acredita na nossa inocência em relação àquilo que eu estava sendo acusado e inclusive estão discutindo o meu retorno para a coordenação estadual por que a nacional não aceita, tipo assim, que o Roquevan esteja com a gente dois anos, mas depois ele sai pra ser candidato, então não podem contar cem por cento. Então não abalou graças a Deus. Quem perdeu com isso, dos pré-candidatos, foi o Cristiano, que ia ter o apoio do MAB e agora não vai mais, o Domingos Barbudo que muita gente do MAB votaria nele e por saber de toda essa parafernália com o nome dele envolvido, também não vai mais apoiar. Nos grupos do MAB o pessoal já tem uma decisão: cinco pessoas não vão ter o apoio da entidade que são o Odécio, a esposa dele, o Domingos Barbudo, Cristianao e Esmael, esses não teriam o apoio da nossa companheirada.

Prof. Augusto: Você poderia ser hoje deputado estadual e não é. Quais os erros que você acha que foram cometidos nessa candidatura?

Roquevan: Eu consultei alguns advogados, além dos que trabalharam pra nós contratados pelo PCdoB, inclusive um de Brasília, Paulo Guimarães, que é do PCdoB, e todos eles disseram que teve erro jurídico aqui. Além de erro do presidente do partido que teria que se apresentar perante o juiz com um advogado quando fomos comunicados que eu estava com dupla filiação. Mas o nosso problema foi de prazo. Eu pedi desfiliação no tempo certo, me filiei no tempo certo, o PPS não comunicou meu desligamento ao cartório eleitoral e deu esse problema de dupla filiação. Todo mundo acha que isso foi proposital por parte do PPS, mas esse não foi o maior problema, o problema foi de incompetência jurídica e talvez de boa vontade do presidente pra resolver essa questão. E o pior é que ficaram nos enrolando e nos mentindo, dizendo que o problema estava resolvido. Eu fiquei numa reunião em Belém até duas da madrugada, cansado, me puxam pelo braço e dizem que estava resolvido o problema e o cabra não foi capaz de dizer “olha, não tá resolvido. Nós ganhamos em Belém com algumas ressalvas e agora tá indo pro TSE”. Por que em Belém o juiz disse que eu não tinha problema de dupla filiação, mas o período de filiação é que era o problema. Eu não teria um ano de filiado e eu perderia o direito de concorrer às eleições. Esse foi o problema.

Prof. Augusto: Tem muita gente confundindo essa impugnação da tua candidatura com a questão da lei da ficha limpa, relacionando com os processos que tu respondes pela tua atuação no MAB e não é nada disso, né? A questão foi mesmo a dupla filiação. É isso?

Roquevan: Foi dupla filiação, até por que ficha limpa é quando o camarada participou de desvio de dinheiro público e aí tem que ser gestor, ou ele é deputado, ou governador, alguma coisa nesse sentido, até vereador, e a gente não foi. Então não tem desvio de recursos nisso daí. Os meus processos em relação à atuação no MAB não tem nada a ver por que eu não fui julgado, não fui condenado em nenhuma instância. Então não tem impedimento legal, não nesses casos de me candidatar a nenhum cargo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Professor, essa entrevista foi simplesmente nota 10. O blog tá demais. Sempre acesso pra me informar sobre o que acontece por aqui.

Anônimo disse...

Realmente seria mais viável uma candidatura à verador, até porque seria bastante interessante um verador bombástico como oposição ao atual prefeito se ele reeleito for.