domingo, 21 de fevereiro de 2010

Em memória de Neuton Miranda

É com muito pesar que recebo a notícia da morte do presidente do meu partido, Neuton Miranda, pessoa com quem convivi durante mais de dez anos, período em que fui ativo militante do PCdoB. Como poucos, pude testemunhar de perto seu espírito de luta e principalmente sua justeza de idéias, típica de um militante comunista, quando opinava sobre os acontecimentos políticos do Estado e do Brasil. Na minha memória fica a imagem de um homem de personalidade forte, que toma decisões e que nunca se aparta da esperança de vitória.
Quando estava concluindo meu curso de História, em 2001, recebi de Neuton Miranda uma grande contribuição em forma de entrevista, o que enriqueceu sobremaneira a minha monografia (O PCdoB paraense no processo de redemocratização). Neuton recebeu-me pacientemente em sua casa e batemos um longo papo sobre sua militância, que se deu em grande parte na luta contra o regime autoritário de 1964.
Como agradecimento, mas também como forma de retribuir sua gentileza, reproduzo aqui neste blog a parte da monografia fruto daquela entrevista. Invertendo os papéis, espero agora eu contribuir com a sua memória que considero ser digna do conhecimento de todos os paraenses e brasileiros desta e das gerações futuras.

O PCdoB paraense no processo de redemocratização
 (Participação de Neuton Miranda)

Neuton Miranda Sobrinho é um paraense de Marabá, cidade que fica no sudeste do Pará, mas estava há muito afastado de sua terra natal. Estudava Engenharia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), quando começou a militar no movimento estudantil em 1968. No início não tinha nenhum compromisso mais sério com qualquer organização, porém se relacionava bem com o pessoal da AP.
No segundo semestre daquele ano participou, como delegado eleito, do famoso 30° Congresso da UNE, que foi realizado clandestinamente numa fazenda em Ibiuna (sul do Estado de São Paulo), onde foram presos centenas de estudantes. Neuton não conseguiu escapar e passou cinco dias preso, depois foi embarcado em um ônibus e liberado em Belo Horizonte, onde morava e estudava. Em 1969 assumiu sua militância na AP. Entre 1969 e 1970 assumiu a vice-presidência do DCE da UFMG. Em 1971 ocorre mais um Congresso da UNE, onde Honestino Guimarães é eleito para a sua presidência e Neuton Miranda para a vice.
Em dezembro de 1971 o aumento da repressão empurra Neuton para a clandestinidade. Vários amigos seus haviam sido presos e a qualquer momento poderia chegar a sua vez. Ele resolve tomar o caminho do interior de Minas. Sai de casa sem avisar pra onde iria. Dois dias depois a polícia invade sua casa. Seu irmão, que tomava banho, é surpreendido por policias armados de metralhadoras. É intimado a prestar depoimento, mas realmente não sabia do paradeiro de Neuton. Seu irmão responde algumas perguntas e é liberado em seguida. Neuton fica dois meses escondido no interior a espera de algum contato da AP, que só vai acontecer no início de 1972, quando segue para São Paulo. A condição de clandestino em seu próprio país só iria acabar em 1979, com a Lei de Anistia. Ele conta como conseguiu escapar de ser preso pela polícia política do regime:
“(...) a polícia estava atrás de mim e eu já sabia, por que recentemente eles tinham ido me procurar na Sede do DCE. Eu era vice-presidente do DCE. Num dia pela manhã eu me dirigi à Sede do Diretório Acadêmico do curso de Engenharia, que era o curso em que eu estudava. Eu estava lá com alguns diretores a espera de outros para começarmos uma reunião quando chegou uma equipe do DOPS procurando por Neuton Miranda. Eles perguntaram para um funcionário da Universidade que tomava conta da Sede do Diretório Acadêmico, mas ele me conhecia apenas como “Viet”. (Eu era muito conhecido por “Viet”, que foi um apelido que eu ganhei na época, muito por conta das manifestações contra a guerra do Vietinã e inclusive pela aparência física que eu tinha semelhante a dos Vietnamitas). O funcionário disse que não me conhecia e então eles perguntaram por Cícero Mourão, que era o presidente do DCE. O funcionário apontou a sala onde o Cícero estava, juntamente comigo. Eles perguntaram por mim ao Cícero que respondeu que não sabia onde eu estava. Eles deram voz de prisão para o Cícero. Logo depois eu corri em casa pra pegar umas mudas de roupa. Eu ia passar um tempo fora, pois sabia que eles viriam atrás de mim. Peguei as roupas rápido, coloquei numa sacola e desci um dos elevadores sem saber que os policiais subiam pelo outro. Mais uma vez eu escapei. Foram duas escapadas num dia só.”
No início de 1972 acontece a integração da AP ao PCdoB, depois de um longo processo de mais ou menos dois anos de discussões. No período em que milita em São Paulo Neuton está sob a direção do PCdoB.
Em 1973 sai da diretoria da UNE e passa a integrar a direção do partido em São Paulo, compondo uma das duas estruturas existentes. Neuton passa a ser responsável por dirigir a atuação dos comunistas no movimento estudantil e depois assume a tarefa de cuidar da “Agitação e Propaganda”, uma das principais frentes internas do partido.
Outra vez em que Neuton escapou foi numa batida policial, quando já estava em São Paulo. Ele não lembra bem o ano, mas acredita que tenha sido em 1973 ou 1974:
“uma vez eu estava andando nas ruas de São Paulo com um companheiro do partido. Naquela época era difícil fazer reunião em local fechado e as conversas se davam muito de forma bilateral. Naquela época a gente cortava a cidade de São Paulo toda andando. Foi quando vimos uma batida policial e tentamos desviar, mas um policial viu e nos chamou parando o trafego. Eu pensei que naquele momento tinha chegado a minha hora. Naturalmente o nervosismo era grande e o policial percebeu. Eu carregava comigo uma bolsa tiracolo que estava abarrotada de material do partido. Quando eu me dirigi para ele já tirando os documento ele disse que não precisava, queria ver o que tinha na bolsa. Eu ainda tive presença de espírito de me adiantar, abrir a bolsa e tirar o material pra que ele visse que não tinha nada no fundo. Ele perguntou o que eu fazia e eu disse que era estudante. Procurando manter o controle da situação perguntei o que eles estavam procurando. Ele disse: armas, drogas... Vi então que não estavam atrás de material escrito. Ele revistou até a caixa de fósforo e não percebeu o tipo de material que eu carregava.”
A situação da batida policial não era tão simples como alguns podem pensar, pois além de carregar material tido como subversivo, que por si só poderia lhe render alguns anos de cadeia, torturas e ate a perda da própria vida, Neuton tinha notícias de que no primeiro semestre de 1972 havia sido julgado à revelia em Minas Gerais e recebido uma condenação de dois anos de prisão. Estava, portanto, na situação de “procurado” e qualquer prisão, mesmo que banal, fatalmente iria revelar sua condição. “Eu escapei de uma boa”, diz ele rindo da própria sorte.
O Comitê Estadual do Pará continuava a procurar reforços e para isso contava com o importante apoio do Comitê Central. Neuton, ainda em São Paulo, trabalhava como responsável pela distribuição do jornal “Tribuna da Luta Operária”, quando em 1980 foi procurado pela direção nacional do partido que lhe fez um convite para acompanhar a eleição do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Conceição do Araguaia, na Região Sudeste do Pará. Neuton prontamente aceitou o convite e passou a cumprir a nova tarefa, que durou dois meses. Foi quando surgiu a idéia de desloca-lo definitivamente para ajudar na construção do PCdoB no estado.

2 comentários:

MARIA disse...

Lamentável a perda de Neuton Miranda, independentemente da sua importância para o PC do B paraense, no cenário político brasileiro, onde tristemente predomina a corrupção, nomes como o dele ainda nos transmitiam um sentimento de esperança e admiração. Quanto à sua monografia, fiquei realmente curiosa pela leitura na íntegra.

Prof. Augusto Magalhães disse...

Vou te emprestar uma cópia. Sei que você aprecia o tema.